A Teoria da Dor

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Um momento de descontração agora blog. Encontrei o texto abaixo na internet e gostaria de compartilhá-lo com vocês. Trata-se de uma crônica escrita pela pedagoga Marisa Bueloni.

Gostei muito do texto, pois quando comecei a sentir os primentos sintomas da doença de Crohn, muitos não me levavam a sério. Professores, pai, familiares, amigos… todos achavam que eu estava brincando ou “fazendo corpo mole” para não ir às aulas da faculdade ou para não trabalhar.

Aqui estou eu agora, pós-operado e sem dores (atualmente) e fazendo piada do passado. 🙂

Teoria da Dor
(Marisa Bueloni)

 Sou uma pessoa tocada pela dor. Desde muito cedo. Refiro-me à dor física. Seria eu uma “alma eleita” para sofrer? Não sei. Já tive um pouco de tudo. Quando menina, dores de dente de uivar, dores de barriga, dores insuportáveis pelo corpo. Passava noites em claro, minha mãe esfregando um paninho com álcool nas minhas pernas. Peguei caxumba, sofri com furúnculos, terçóis (hordéolo) de não abrir o olho.

Entre 9 e 10 anos, tive os lábios queimados pela ingestão de um remédio para giárdias e uma unha arrancada do dedão do pé direito. Cólicas menstruais (dismenorreia) de faltar do colégio. A lista é comprida. Minha primeira dor de cálculo renal foi aos 15 anos, com internação em hospital e retirada da pedrinha por sonda. Já passei por 11 intervenções cirúrgicas, sendo nove com anestesia geral. Só a coluna, operei três vezes.

Durante muitos anos, depois de adulta, fui a maior consumidora de “Cataflan”. O laboratório tinha de me dar um prêmio. Ninguém no planeta comprou mais esse remédio do que eu. E “Dorflex”? Para mim é uma balinha. “Advil”? Anda comigo, dentro da bolsa. Diga o nome de um analgésico disponível no mercado farmacêutico e eu já o tomei.

Em 2007, dois anos depois da minha terceira cirurgia na coluna, comecei a escrever um livro abordando este tema espinhoso: a dor. Possível título: “Viver dói”. Um dos capítulos trata de ironizar algumas teorias a respeito dessa sensação arrepiante. Deixo aqui parte de alguns conceitos (na base do bom humor…) que permeiam o universo doloroso. Sabe aquelas “pérolas” imperdíveis? Anotadas e registradas. O capítulo chama-se:

(Des)Montando teorias

A dor é você quem faz – Se fosse possível “criar” minha própria dor, seria bem leve e suave. Mas, vamos combinar, eu não a “criaria” nem por um bilhão. E não somos nós os autores da nossa dor.

A dor é uma ilusão – Não é. Antes fosse! De que tipo de ilusão seria a dor? Ninguém “sonha” com a dor e ela não é uma quimera. Não tem como ser algo “falso”. Ela existe, de verdade e ataca com força. Deveria ser substantivo concreto.

A dor é um passarinho que voa lá fora – Quero voar com ele, quero voar com todos os passarinhos, lá fora, para ver se a dor vai embora.

A dor santifica – Depende. Há quem se torne uma pessoa melhor, por causa do sofrimento. A pessoa se apega aos céus, pois os remédios da terra ela já conhece. Há quem acabe oferecendo a sua dor – para as almas do Purgatório, para a conversão dos pecadores, para alcançar uma graça – e muitos as têm alcançado neste oferecimento de vida.

A dor é um fantasma que assombra – Ela não só assombra. Ela também dói. Ela é muito mais temida do que uma assombração.

A dor está no cérebro – Pode ser. Quando alguém está com uma dor de cabeça lancinante, a dor está literalmente no cérebro. Ela pode estar em qualquer outro lugar do corpo. Conhecemos a teoria de que nada chega ao cérebro antes de passar pelos sentidos. A dor percorre o mesmo caminho.

A dor é a prova de que se está vivo – Ainda bem! Quer dizer que, a partir do momento em que não se sente mais dor, se está morto? Bela vantagem. Todos querem estar vivos e, se possível, sem dor.

Dor de barriga é sinal de que você tem barriga – E eu ouvi muito isso, como um gracejo, uma piadinha, durante um bom tempo da minha infância. Até ser levada ao médico e tratada.

A dor nos une – Sim, existe certa solidariedade entre os sofredores. Trocamos nomes de remédios, chás, poções milagrosas, plantas curativas, injeções, unguentos, emplastros, o que vier. A dor tem o poder de juntar algumas almas dolorosas em volta de uma mesa e ver quem sofreu a maior delas nesta vida. Muitos apostam na dor de cálculos nos rins. Seria a pior de todas. Uns dizem que é a dor de ouvido. E, para as mulheres, tem a dor das contrações do parto…

A dor é a purificação da alma – Também creio nisso. Mas, quem sabe, existem outras formas de se purificar, sem tanto sofrimento físico?

A dor não existe – Sem comentário.

A dor é sábia – Sim, ela sabe direitinho como e onde doer. E ela sabe escolher os horários também. De madrugada, de preferência. Nos fins de semana, quando se procura o médico e ele viajou. No dia de Natal. Nas férias na praia. Quando você acha que esta sabedoria da dor vem em boa hora, então, é hora de lutar contra ela.

É bom que doa – Rrrsss…

É preciso sentir dor, para dar valor à vida – O mundo ainda vai acabar, com tanta filosofia. E vai ter de engolir mais esta. (Embora, cá para nós, isso tenha uma ponta de verdade: o dia parece tão mais luminoso e a vida com muito mais sentido, quando a dor passa).

A dor é democrática – Se alguém quiser fazer da dor um instrumento político, ao menos lute para encontrar o alívio para ela. Votarei no primeiro candidato que prometer “acabar com a dor”.

A dor remove montanhas – Perdão, errei feio. Não é a dor, é a fé que remove montanhas.

A dor é uma bênção – Tente ser “abençoado” por uma dor de hérnia de disco. Esta é uma bênção que dispensamos rapidinho. Cadê a verdadeira bênção?

A dor é passageira – Ela é a passageira, de fato, fica ao nosso lado, no banco do passageiro. Ela nos acompanha nas viagens, é a passageira da nossa existência.

Esqueça a dor – O que fazer? Tentar esquecer a dor ou bater em quem nos sugeriu isso?

“Dor de barriga não dá só uma vez” – Ditado perfeito.

A dor é uma ficção – De que tipo? Científica?

A dor é imaginária – Lembra da série de filmes “Além da imaginação”? Então.

A dor passa quando você não pensa nela – Conta outra. A dor não se “pensa”; a dor se sente. Quanto mais você procura “não pensar”, ui, mais dói.

A dor é uma fantasia – De quê? De Carnaval? Encontrem uma fantasia de dor, que eu quero vestir e ver se dá pra sambar com ela até cair.

Gostou?
  • Sónia

    Já perdi a conta às vezes que as pessoas me dizem -esquece isso, vamos sair e eu não tenho forças nem para me levantar da cama…e a minhafavorita não penses nisso( e eu cheia de cólicas) que passa. Parabéns pelo blog.