Talidomida pode ajudar crianças com doença de Crohn

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A talidomida, um medicamento taxado de vilão após causar uma devastadora onda de defeitos congênitos na década de 1950, pode ajudar a tratar crianças com doença de Crohn (DC) que não responderam a outros medicamentos. Isso é o que sugere uma nova pesquisa.

Após oito semanas de tratamento, mais de 46% das crianças portadores de doença de Crohn que tomaram talidomida tinha atingido a remissão, em comparação com as cerca de 11% que haviam sido administradas com placebo inativo. A remissão ainda durou mais: uma média de 181 semanas, comparando-se com apenas 6,3 semanas do grupo placebo.

Os resultados foram publicados no dia 27 de novembro de 2013 no Jornal da Associação Médica Americana.

A talidomida foi utilizada pela primeira vez no fim dos anos 1950 como tratamento para insônia e ansiedade. Fora aprovado para uso em diversos países da Europa, além de Japão, Canadá, Austrália e Brasil. Entretanto, a talidomida nunca chegou a ser aprovada pelo FDA (Food and Drug Administration, a ANVISA norte-americana) para uso nos EUA. No início da década de 1960, ficou evidente que a droga causou defeitos congênitos significativos, incluindo braços e pernas severamente mal formados ou a total ausência desses membros. O medicamento foi rapidamente retirado do mercado.

Manteve-se fora do mercado por um tempo significativo até que pesquisadores perceberam que a droga tinha outros usos, principalmente para diminuição de um sistema imunológico hiperativo. O FDA aprovou o uso da talidomida para o tratamento de uma complicação da lepra em 2006 e, posteriormente, para o tratamento de mieloma múltiplo, um câncer de medula óssea.

A talidomida está sendo estudada como um tratamento para uma série de doenças inflamatórias, mas é importante frisar que em todos os casos em que a droga é usada, qualquer mulher em idade reprodutiva deve ser informada sobre o potencial de defeitos congênitos graves que a droga pode causar durante a gravidez. Há relatos que até mesmo uma dose de talidomida pode causar defeitos de nascimento. Os homens que tomam o remédio devem usar preservativos porque a substância também pode afetar a qualidade do esperma.

O estudo analisou qual efeito a talidomida poderia ter sobre a doença de Crohn em crianças e adolescentes. Um total de 54 crianças com doença de Crohn moderada/grave foram incluídos no estudo. Todas as crianças que participaram do estudo haviam recebido outros tratamentos previamente para a DC sem obter sucesso.

Vinte e oito crianças receberam talidomida e 26 receberam um placebo durante oito semanas. Aqueles que não tinham demonstrado melhora enquanto no grupo placebo durante oito semanas foram transferidos para o grupo de talidomida por mais oito semanas. Qualquer uma das crianças que responderam ao tratamento com talidomida permaneceram nele por pelo menos 52 semanas, de acordo com o estudo.

O estudo observou que as crianças ou adolescentes que tomaram talidomida foram mais propensas a alcançar remissão da doença e era provável que tal remissão durasse muito mais tempo do que uma alcançada enquanto no grupo placebo.

Os efeitos colaterais foram pouco frequentes, sendo o mais frequente e grave uma condição que causa sensações estranhas nos braços ou pernas. Ao suspender o tratamento com a droga essa sensação desaparece. A talidomida também tem um forte efeito sedativo, que pode ter um impacto menor quando administrada durante a noite.

A talidomida ainda precisa ser melhor pesquisada, mas a priori entende-se que o mecanismo da droga é eficaz e útil em poupar crianças do uso de esteróides e drogas mais pesadas, entretanto não é milagrosa e não pode ser considerado um tratamento por si só, apenas como terapia coadjuvante.

Crianças e adolescentes provavelmente poderiam continuar usando a droga na idade adulta, embora quando eles atingissem a idade reprodutiva teriam de ser informadas sobre os riscos muito graves de defeitos de nascimento que podem ocorrer em caso de uma gravidez. Por isso, aconselhamento do uso de métodos contraceptivos são atualmente necessários para uma receita de talidomida.

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